Nathalia Ziemkiewicz
Meu celular acabou de apitar avisando uma mensagem nova no Whatsapp. Era
um vídeo de 13 segundos em que você aparece fazendo um boquete e perguntando ao
câmera: “quer meu c*zinho apertadinho?” – fazendo um sinal de OK. Eu deveria
ter achado graça, caído na gargalhada e compartilhado com outros contatos.
Porque, afinal, é só mais uma “vagabunda que se deixou filmar” e cujas imagens
acabaram vazando para milhares (milhões?) de desconhecidos. Como se nenhuma moça
“direita” pudesse chupar um pau ou ficar de quatro. Como se ninguém falasse
baixarias a dois. Como se fosse absurdo realizar a fantasia de ser filmada
enquanto transa.
Eu não te
conheço, mas descobri que você é uma universitária de 19 anos e mora em
Goiânia. Não sei quem era o cara do vídeo nem a relação que você tinha com ele.
Se era amante, namorado, marido, affair de uma noite. Se você foi “ingênua” ou
“safada”, se tem uma índole boa ou ruim. Simplesmente não interessa. Nada disso
justifica o massacre contra você e sua família. Qual o tamanho da sua dor
agora? Soube que você não está frequentando as aulas e foi afastada da loja de
roupas em que trabalhava por causa do assédio. A delegada que cuida do seu caso disse que você disfarçou
a aparência para não ser reconhecida, que está abatida de tão triste.
Lamento muito por todos os comentários
grotescos e ofensivos que têm circulado na internet. Eles foram feitos pelas
mesmas pessoas que acreditam que, se estava de saia curta na rua, pediu para
ser estuprada. Tipo: não queria ser exposta, então não deveria ter se deixado
filmar. É uma lógica machista que inverte os valores. Você é puta – e não o
cara, um mau-caráter. Querida, nossa sociedade está mergulhada nos próprios
pudores. Não há nada de errado no que você fez. A cretinice da história toda
pertence somente àquele(a) que primeiro repassou o vídeo de um celular privado
para uma rede infinitamente invisível.
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A graça com a desgraça dos outros: internautas fazem o sinal de OK em referência ao vídeo de Fran |
Espero que você tenha visto a página Apoio à Fran, já
com quase 2 mil apoiadores no Facebook: “ela é a vítima”. Sabe, em 2006, uma
jornalista que eu venero contou uma história parecida com a sua.
Fotos de uma garota de 20 anos transando com dois caras foram parar no Orkut.
Ela e a família precisaram mudar de cidade para recomeçar a vida publicamente
destroçada. Eu desejo que você consiga se perdoar. Posso imaginar a culpa e a
vergonha que você está sentindo. E torço para que os leitores dessa carta sejam
mais humanos e menos hipócritas do que eu tenho visto por aí. A foto desse post
é o abraço que eu gostaria de te dar.
Nathalia Ziemkiewicz, jornalista e autora
do site Pimentaria
Uma amiga de Fran
me contou que ela só sai de casa para ir aos advogados e à delegacia. Está em
pânico, morre de medo de ser reconhecida.
Um comentário:
Meu Deus, estamos vivendo em um tempo em que a hipocrisia impera. "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço".Aposto que mais da metade dos que estão massacrando essa menina fizeram ou fazem coisas bem piores, e não me refiro às suas vidas sexuais. Sabe, essas redes sociais me amedontram. Sua vida pode ser destruída em questões de minutos se vc. der um pequeno vacilo que seja.
Acabou a privacidade. E qqer um se acha no direito de invadir sua vida e acabar com ela.
Pára o mundo que eu quero descer... de novo.
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